Eleições nos EUA: à espera de uma derrota, Trump ensaia o papel de ‘Sr. Veto’
Presidente ameaça bloquear a agenda democrata

Diante do risco de perder o controle do Congresso, presidente ameaça bloquear a agenda democrata, mas terá de enfrentar investigações e o desgaste político de seu governo.
Para quem passou os 20 meses ignorando o Congresso, o presidente Donald Trump já vislumbra a segunda metade de seu mandato sob uma nova realidade, sem o controle do Legislativo. A maioria das pesquisas aponta que os democratas terão uma vitória na Câmara e boas chances de recuperar o Senado.
A imprensa americana dá conta de que Trump traçou uma estratégia para enfrentar o pior cenário, a partir das eleições desta terça-feira — o que levaria o partido opositor a assumir o controle das duas casas do Congresso e transformá-lo em pato manco, limitando o seu poder.
O presidente antecipou a sua fórmula para governar, caso isso aconteça, e afirmou que não deixará que os democratas “estraguem tudo”:
“Acho que vou me tornar o Sr. Veto”, disse o presidente ao podcast “Pod Force One”, do “New York Post”. “Eles vão enviar algumas coisas. Você veta. E, eventualmente, depois de um ou dois meses sendo vetados, eles só estão perdendo tempo, vêm até nós e fazemos um acordo.”
Em outras palavras, Trump pretende usar a caneta para assinar ordens executivas, como vem fazendo regularmente em seu segundo mandato, e vetar projetos aprovados por um Congresso controlado pela oposição.
É fácil imaginar, por exemplo, o veto do presidente em projetos prioritários dos democratas, como a reversão dos cortes na saúde e a extinção do ICE.

Se os republicanos perderem o controle da Câmara dos Representantes, caberia aos democratas impor, por meio do veto, um freio à agenda da Casa Branca. Com a Câmara assegurada, o partido opositor também assumiria o controle de comissões e poderia investigar denúncias de corrupção e conflitos de interesse cometidos pelo governo e pela família do presidente.
De antemão, Trump sinalizou ainda que poderá conceder indultos preventivos para proteger assessores e aliados, entre eles o bilionário Elon Musk, caso os democratas avancem com investigações e processos judiciais.
Um terceiro pedido de impeachment de Trump, alvo de dois processos durante o primeiro mandato, não está descartado. Mas seria precipitado, pois, a exemplo dos casos anteriores, esbarraria no Senado, que precisa de maioria de dois terços para condená-lo e afastá-lo do cargo.
Na prática, Trump vem recorrendo a decretos presidenciais para levar adiante a sua agenda. Em menos de dois anos, assinou mais de 300, governando à margem do aval do Congresso: impôs tarifas a países aliados, intensificou a repressão à imigração, determinou cortes de funcionários nos departamentos e agências federais, revogou diretrizes do governo Biden sobre proteções à população LGBTQIA+, entre outras medidas.
O presidente se elegeu com promessas de conter a inflação, baixar preços e encerrar guerras, mas os americanos testemunharam o contrário disso. A guerra contra o Irã contribuiu para disparar o custo de vida e derrubou a popularidade do presidente, hoje em torno de 32%.
Quando chamou para si a disputa nas eleições de meio de mandato — “Finjam que estou na cédula”, apelou aos correligionários — Trump estava convocando também um referendo sobre sua gestão. Percorreu o país e se jogou em comícios como se fosse candidato. Elevou o tom das agressões aos adversários, vangloriou-se de suas obras e passou ao largo das aflições do eleitorado. É, portanto, destinado a ele o principal recado das urnas nesta terça-feira.
Fonte g1



