Ana Lima neste mês fala sobre o bairro das Palmeiras
Bairro onde residiu com sua família




Minhas Palmeiras
“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.” – Gonçalves Dias
E no meu Bairro das Palmeiras, o passado também cantava em forma de samba, fé e festa.
Ali existiu o Bloco Unidos das Palmeiras, sob o comando de senhor Alexandrino e Walvicks. Era coisa linda de se ver: porta-bandeira, comissão de frente, ala das baianas, rainha da bateria. A senhora Lauride, ao lado do esposo, o senhor Walvicks, fazia parte dessa história que enchia Cardoso Moreira de alegria. Quando o bloco passava, o bairro inteiro virava festa.
E na Quinta-feira Santa, o gesto era de solidariedade: vô Gastão recolhia o leite para Cooperleite e doava um litro de leite para cada morador do Bairro Das Palmeiras.



Em 13 de junho, o som era outro, mas o encanto permanecia. Era dia de Ladainha de Santo Antônio, na fazenda do vô Gastão e da vó Gracinda. Quem rezava a ladainha era tia Glecy Louvain da Silva. Iam pessoas de todo canto. Ao final, vó Gracinda servia café, biscoito de padaria, e as crianças passavam o anel. Que tempo bom era aquele.
Lembro bem do caminhão Ford do papai. Íamos para a fazenda, e as pessoas ficavam em frente às casas esperando. Papai parava, todos subiam na carroceria, e seguíamos juntos rumo à fazenda do vô Gastão — como se a alegria tivesse endereço certo.
No dia 23 de junho, era a vez da Festa Junina das Palmeiras, sob a direção do seu Arlindo. O deputado estadual Paulo Albernaz marcava presença nas festas do bairro. Tinha quadrilha, apresentações locais e a famosa fogueira. Confesso: nunca tive coragem de passar. Alguns passavam até de meia e queimavam os pés. Minha irmã Luiza, não — atravessava com tranquilidade, como quem acreditava de verdade.
No tempo de eleição, o bairro também se enfeitava. Era outra festa. Seu Arlindo, cabo eleitoral de Paulo Albernaz, mobilizava todos com o mesmo entusiasmo das celebrações.

E aos domingos, o campo de futebol do seu Zé Medeiros também virava ponto de encontro. O futebol reunia gerações, risadas, provocações leves e aquela torcida improvisada à beira do campo. Era mais que jogo: era convivência, era pertencimento, era o Bairro das Palmeiras pulsando em cada chute.
Na década de 1960, Dona Cirene, professora subvencionada de Campos dos Goytacazes, dedicava-se com carinho à educação dos moradores do bairro. As aulas aconteciam nos fundos de sua residência, em uma sala simples construída em madeira, onde ela recebia seus alunos em diferentes turnos ao longo do dia.
Muitas vezes, Dona Cirene passava o dia inteiro ensinando, dividindo o tempo entre as turmas. Nos intervalos, oferecia leite ou algo preparado por ela mesma, como broa de milho ou outros bolos feitos em casa, demonstrando cuidado e atenção não apenas com o aprendizado, mas também com o bem-estar dos alunos.
A sala de aula possuía carteiras duplas de madeira, doadas pelo município de Campos dos Goytacazes, que ajudavam a estruturar aquele espaço de ensino tão importante para o bairro.

Entre seus alunos esteve o senhor José Maria, pai de Giseli, que foi alfabetizado por Dona Cirene — exemplo do impacto duradouro de sua dedicação à educação e à formação das gerações locais.
No dia a dia, Moisés Pereira levava aos ouvintes da Rádio Globo as principais notícias de Cardoso Moreira, mantendo a população sempre bem informada.
Já Michel Veste Noivas destacava-se como um renomado decorador e assessor de eventos. Além de vestir noivas, também cuidava com excelência dos trajes de madrinhas e daminhas. Suas decorações, tanto para casamentos quanto para festas de aniversário, eram sempre impecáveis, marcadas pelo bom gosto e pela qualidade.
Era assim: festa, fé, união e simplicidade. Um tempo que não volta, mas que mora inteiro na memória.
Por Ana Lima



Saudades desta Cardoso Moreira que mora no meu coração. Saí de Cardoso, mas, Cardoso jamais sairá de mim.
Bairro das Palmeiras…onde a alegria, a Fraternidade, a festa a Fé sempre foram constantes.
Belo texto… saudades deste tempo, deste lugar.
Parabéns Ana Paula!
Parabéns Conexão Regional!
Parabéns Bairro da Palmeiras!
Parabéns Cardoso Moreira!
Conhecer a história do lugar onde se vive é homenagear homens e mulheres que trabalharam incessantemente para construir e deixar um legado à sua descendência. Cada rua, cada casa antiga, cada praça guarda um pedaço de vida — risos, lutas, conquistas silenciosas que moldaram o presente.
Para as novas gerações, esse conhecimento é mais do que curiosidade; é direção. Quando um jovem entende de onde veio, ele caminha com mais firmeza para onde quer ir. A história ensina valores que não se aprendem apenas nos livros modernos: respeito, pertencimento, identidade. É um lembrete de que nada surgiu do nada — tudo foi construído, passo a passo, muitas vezes com esforço e coragem.
E há também um certo encanto nisso tudo… como ouvir histórias ao redor de uma mesa, que aquecem o coração e dão sentido às coisas simples. Porque quem conhece sua história não se perde com facilidade — carrega dentro de si um mapa invisível, traçado pelo tempo.
No fim das contas, preservar a memória de um lugar é um gesto de amor: por quem veio antes e por quem ainda está por vir. Obrigada Ana Paula, por partilhar suas memórias e despertar sensações que aquecem nossos corações e nos levam a um tempo que apesar da simplicidade era maravilhoso.