Após cirurgia, Papa Leão XIV tem diagnóstico de câncer pulmonar
Pontífice está com 71 anos

Ele ficará internado por cerca de uma semana; recuperação ocorre antes de viagem à América do Sul em novembro.
A cirurgia do Papa Leão XIV para a retirada de um nódulo do pulmão — descoberto durante exames médicos de rotina — terminou “com sucesso”, informou o Vaticano nesta terça-feira. O procedimento, realizado no Hospital Gemelli, em Roma, durou cerca de 90 minutos e confirmou que o tumor era cancerígeno. Segundo a Santa Sé, o exame histológico feito durante a operação atestou o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar, suspeitado a partir dos exames pré-operatórios. De acordo com os médicos, parte do pulmão direito do Papa foi retirado durante a cirurgia para garantir a remoção completa da lesão. Esta é a primeira internação do Pontífice americano, de 71 anos, desde que assumiu a liderança da Igreja Católica, em maio de 2025.
“A intervenção foi concluída com sucesso, dentro do tempo previsto e conforme o planejado”, declarou a assessoria de imprensa do Vaticano no Telegram.
Em comunicado, o Vaticano informou que os médicos retiraram o lobo inferior do pulmão direito do Pontífice, por meio de uma técnica videoassistida, “para garantir que o procedimento fosse radical”. Leão XIV permaneceu na sala de cirurgia por cerca de três horas, despertou normalmente e, após um breve período de observação, retornou ao quarto, no décimo andar do hospital. Não houve complicações, segundo o médico Luigi Carbone e o cirurgião Stefano Margaritora, que coordenou a equipe responsável pela operação.
Ao ser questionada se havia algum indício de que o câncer tivesse se espalhado, uma fonte do Vaticano disse que exames adicionais estavam sendo realizados.
Pela manhã, Leão deixou o Vaticano de carro e acenou para as pessoas que o saudavam durante o trajeto. Ao chegar ao Gemelli, entrou pela porta principal do hospital, sorrindo e acenando para dezenas de fiéis que se reuniram no local para recebê-lo. A previsão é que o Papa permaneça internado por cerca de uma semana para se recuperar da cirurgia. O Vaticano anunciou na segunda-feira o cancelamento de todas as suas audiências até 20 de outubro.
O Pontífice revelou a descoberta do nódulo no domingo, durante a oração do Ângelus, na Praça de São Pedro. Os médicos, disse, identificaram a lesão “em estágio inicial” durante exames recentes e disseram que “seria adequado intervir”. O Vaticano informou posteriormente que o nódulo foi descoberto em exames de rotina e que Leão não apresentava sintomas que tivessem motivado uma investigação específica de seus pulmões.
Na véspera da internação, o Pontífice manteve a agenda e participou de sete encontros. A suspensão dos compromissos, porém, levou a mudanças na programação do Vaticano. A missa prevista para quarta-feira na Praça de São Pedro será celebrada pelo cardeal filipino Luis Antonio Tagle, escolhido recentemente por Leão XIV para assumir o posto de decano do Colégio dos Cardeais.
A ausência do Papa também alterou os planos de uma conferência sobre o acompanhamento pastoral das famílias, realizada no Vaticano. Os organizadores decidiram adiar a divulgação do documento final do encontro para depois da recuperação de Leão XIV, que havia manifestado interesse em conhecer as conclusões e dar sua contribuição.
Transparência incomum
A divulgação do diagnóstico representa um nível incomum de transparência sobre a saúde papal. Historicamente, o Vaticano mantém grande sigilo sobre as condições médicas dos Pontífices, embora tenha começado a adotar uma postura mais aberta durante o pontificado de Francisco, que falava publicamente sobre seus problemas de saúde. Leão, nascido em Chicago e considerado uma pessoa de boa saúde, pratica esportes e não tinha problemas médicos conhecidos anteriormente.
Pessoas próximas ao Papa afirmaram que ele demonstrou tranquilidade diante da necessidade da operação. O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, disse à agência italiana ANSA que Leão estava “muito calmo” quando os dois se encontraram na segunda-feira. O cardeal japonês Kikuchi Tsutomu, arcebispo de Tóquio e presidente da Caritas Internationalis, afirmou ao jornal La Repubblica que ele estava “muito tranquilo, como sempre, e brincalhão, como de costume”.
“Ele decidiu passar pela cirurgia em breve para não alterar seus planos de futuras viagens internacionais, portanto não há motivo para preocupação, já que não se trata de uma emergência”, escreveu o cardeal na página da Arquidiocese de Tóquio no Facebook, acrescentando que o Papa não relatou nenhuma mudança em seu estado de saúde habitual.
O que se sabe sobre o nódulo
Um nódulo pulmonar é uma pequena alteração localizada no tecido do pulmão. A presença da lesão não significa necessariamente câncer: muitas delas são benignas, e a avaliação depende de fatores como tamanho, características observadas nos exames, idade e histórico clínico.
Segundo Federico Venuta, chefe de cirurgia torácica do Hospital Policlínico Umberto I, em Roma, os nódulos pequenos são conhecidos como “lesões em moeda” porque apresentam aparência semelhante à de uma moeda nas radiografias. Em geral, não provocam sintomas, enquanto lesões maiores podem causar falta de ar, dores no peito e tosse persistente, eventualmente acompanhada de sangue.

— Esses nódulos podem corresponder a uma ampla variedade de lesões benignas, inflamatórias, infecciosas, autoimunes ou congênitas. Ou podem ser malignos — disse, indicando que a remoção pode ser feita sob anestesia geral, com o paciente respirando por meio de um tubo.
De acordo com a Sociedade Torácica Americana, menos de 5% dos nódulos pulmonares, considerados em conjunto, são cancerígenos. A retirada pode permitir que os médicos analisem o tecido e determinem a natureza da lesão. No caso do Papa, a Santa Sé não divulgou informações que permitam estimar individualmente o risco de malignidade.
Mesmo que o nódulo seja maligno, Venuta considera o prognóstico “muito positivo”, em razão da descoberta precoce. Para uma pessoa saudável, afirmou, o prognóstico de um câncer de pulmão detectado em estágio inicial, especificamente um nódulo pulmonar sem disseminação para outras partes do corpo, é absolutamente favorável.
Especialistas consultados pela AFP avaliam que o procedimento não apresenta riscos particularmente elevados. Marco Scarci, especialista em cirurgia torácica no Reino Unido, afirmou que não se trata de “uma operação particularmente arriscada” e que espera uma recuperação rápida. Ele ponderou, contudo, que “pode levar até três meses para que ele recupere o nível de condicionamento físico que tinha antes”.
A cirurgia ocorreu no Hospital Gemelli, tradicionalmente utilizado para o tratamento de Pontífices. O local conta com uma suíte papal no décimo andar, equipada com capela privativa, cozinha, banheiro e sala de reuniões. No entanto, o espaço está passando por reformas, e Leão está em outra acomodação no mesmo andar, sob forte esquema de segurança.
A expectativa é que ele conte com a assistência de seu enfermeiro pessoal, Massimiliano Strappetti, que acompanhou Francisco durante várias internações no mesmo hospital antes de sua morte, em 2025.
A cirurgia também ocorreu às vésperas de uma viagem de Leão à América do Sul, programada para o período de 6 a 17 de novembro, com visitas ao Uruguai, à Argentina e ao Peru. O itinerário é o mais longo de seu pontificado até agora e prevê deslocamentos de pouco mais de 30,6 mil km, distribuídos em 12 voos e duas viagens de helicóptero, além de uma mudança significativa de altitude durante a passagem pelo Peru.
O período de recuperação estimado poderá permitir que o Pontífice mantenha a programação. Ainda à AFP, Venuta explicou que, em geral, recomenda-se evitar viagens aéreas por cerca de 20 dias após esse tipo de cirurgia, embora haja alguma flexibilidade.
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