Ana Lima nos indaga: se não existissem os idosos?
Sabe responder essa indagação?

E se não existissem os idosos?
Mas, para contar essa história, precisamos primeiro entender o assunto.
— Você…
— Eu? É comigo?
— É você mesmo. Você precisou nascer.
— Com tanta gente nesse mundo de Deus, você, Ana Lima, foi me escolher?
— Caro leitor, é meu dever escolher alguém. E você foi o escolhido. Posso continuar?
— Não tenho outra pessoa… Vai, fala.
— E não me corte, ouviu bem?
— Estarei só ouvindo.
— Pois bem, caro leitor de Ana Lima…
— Já vi… lá vem sermão!
— Você que iria só ouvir está me cortando de novo!
— Está bem. Vou me calar.
— Acho bom.
Caro leitor, um mundo sem idosos não seria mundo.Veja bem: você nasce porque, em algum momento, alguém sonhou com você. Alguém planejou sua chegada. Alguém esperou por você.
E quando você chega ao mundo, quem está lá? Muitas vezes, aquele que um dia será chamado de idoso. Mas naquele momento ele ainda não era idoso.
Ele cuidou de você. Amou você. Alimentou você. Vestiu você. Deu-lhe educação, moradia e proteção. Trabalhou durante anos para pagar seus estudos. De uma forma ou de outra, alguém mais velho ajudou a construir o caminho que trouxe você até aqui.
— Dona Ana Lima, você está complicando o assunto.
— O que você falou por último mesmo, leitor?
— Que vou me calar.
— Acho bom!
Então continuemos. Você cresce. Estuda. Trabalha. Casa. Constitui sua família. Seus filhos crescem também. Casam-se. E seguem suas próprias vidas.
Até que um dia… Você fica sozinho.
— O quê? Sozinho eu? Por quê?
Porque seus filhos têm suas próprias vidas. Trabalho, preocupações, compromissos, filhos, contas… E nem sempre conseguem estar presentes.
Às vezes não há visita. Não há aquele café demorado. Não há tempo para uma conversa.
As datas especiais passam. E aquele que passou uma vida inteira cuidando de alguém começa a perceber que, agora, precisa aprender a conviver com a própria companhia.
— Mas por que começou comigo? Por que não escolheu outra pessoa? Era uma vez outra pessoa… rsrs.
— É você mesmo, leitor. E pronto!
Porque essa história poderia ser sobre qualquer um. Poderia ser sobre mim. Poderia ser sobre você.
E é aqui que eu quero que você pare um pouquinho.
Imagine um mundo sem idosos. Quem contaria as histórias de antigamente? Quem lembraria das pessoas que já partiram? Quem ensinaria aquilo que não está nos livros? Quem guardaria as memórias de uma família? Quem teria vivido o suficiente para nos ensinar que a vida nem sempre sai como planejamos, mas ainda assim vale a pena continuar.
Um mundo sem idosos seria um mundo sem parte da própria história. Porque, antes de serem idosos, eles foram crianças. Foram jovens. Tiveram sonhos. Amaram. Erraram. Recomeçaram. Trabalharam. Criaram filhos. Construíram famílias. E ajudaram a construir o mundo em que você vive hoje.
Por isso, caro leitor, quando você olhar para um idoso, não enxergue apenas cabelos brancos, rugas ou limitações. Enxergue uma história. Ali existe uma vida inteira. Existe alguém que já foi jovem como você. Alguém que talvez tenha carregado você no colo. Alguém que abriu mão de muitas coisas para que você tivesse outras. Alguém que um dia também teve medo do futuro. E talvez, hoje, tenha apenas um desejo simples: NÃO SER ESQUECIDO.

Então, antes de reclamar da lentidão de um idoso, tenha paciência.
Antes de ignorar uma conversa repetida, escute.
Antes de dizer que ele já não entende as coisas, lembre-se de quantas coisas ele precisou aprender para chegar até aqui.
E, principalmente, antes de pensar que o idoso não tem mais nada para oferecer… pergunte a si mesmo o quanto você ainda tem para aprender com ele. Porque o tempo passa para todos.
E, se Deus permitir que você tenha essa oportunidade, um dia alguém poderá olhar para você e dizer:
— Lá vem o velhinho…
E talvez você responda:
— Velhinho, não! Eu sou uma história que ainda está sendo contada.
E o leitor, que até agora estava calado, finalmente pergunta:
— Ana, acabou?
— Acabou.
— Posso falar?
— Pode.
— Gostei.
— Então fique quieto, porque eu ainda estou pensando no próximo capítulo.
Por Ana Lima



