Novas ‘canetas para músculos’ prometem combater a perda de massa e a sarcopenia no envelhecimento

 Substâncias estão em fase de testes clínicos

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Pesquisas com mais de 40 substâncias buscam preservar o tecido muscular sem os riscos dos anabolizantes, mas especialistas reforçam que remédios não substituem o exercício.

O avanço da medicina farmacêutica se prepara para uma nova revolução comparável à chegada das canetas emagrecedoras: o desenvolvimento de medicamentos voltados para a preservação e o ganho de massa muscular. Atualmente, mais de 40 substâncias candidatas estão em fase de testes clínicos pelo mundo para conter a sarcopenia — perda de massa e força muscular decorrente do envelhecimento —, além de auxiliar pacientes em tratamento de câncer, diabetes ou pessoas que perderam volume muscular devido ao uso de remédios para emagrecimento.

Ao contrário dos esteroides anabolizantes sintéticos baseados em testosterona, que acarretam graves efeitos colaterais para o coração e o fígado, as novas fórmulas utilizam estratégias biológicas avançadas. A maioria dos fármacos em estágio avançado de desenvolvimento é composta por anticorpos monoclonais aplicados via injeções ou canetas aplicadoras. Entre as frentes mais promissoras estão as drogas que bloqueiam a miostatina e a activina, proteínas que atuam como “freios” naturais do crescimento muscular no organismo humano.

Segundo Felipe Henning Gaia, chefe do Serviço de Endocrinologia Oncológica do Centro de Câncer A.C. Camargo e presidente da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a novidade responde a um gargalo biológico. Embora a expectativa de vida no Brasil tenha saltado de 36 anos, em 1925, para 82 anos, em 2025, o corpo humano não acompanhou essa evolução no mesmo ritmo. O envelhecimento e as alterações hormonais, como as que afetam as mulheres na menopausa, causam expressiva degradação muscular.

As substâncias mais adiantadas nos ensaios clínicos de fase 3 são o Apitegromab (do laboratório Scholar Rock) e o Bimagrumab (da Eli Lilly), além do Trevogrumab (da Regeneron). A Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) deve avaliar até 30 de setembro o Apitegromab para o tratamento de atrofia muscular espinhal. Caso aprovado, a expectativa é de comercialização no mercado norte-americano entre o fim deste ano e o início de 2027, abrindo margem para o uso alternativo ou combinações com a tirzepatida. Para o Brasil, a estimativa de chegada dos primeiros medicamentos é entre 2028 e 2029.

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Paralelamente, outras frentes científicas exploram abordagens distintas, como a molécula L-β-aminoisobutírico (L-BAIBA) — associada à remodelação dos músculos e investigada em estudo recente das universidades de Leeds, Harvard e USP para tratar danos musculares causados pelo diabetes tipo 2 — e a terapia gênica com folistatina.

Apesar das expectativas favoráveis, os especialistas advertem que os medicamentos não funcionam como solução isolada. Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Unifesp e diretor da SBEM, enfatiza que as drogas isoladas não demonstram aumento expressivo de massa magra, mas atuam minimizando as perdas quando combinadas a outros tratamentos. Além disso, o bloqueio excessivo da miostatina pode causar efeitos adversos como espasmos musculares, erupções cutâneas e até comprometimento dos tendões ou diminuição da densidade capilar.

Outro alerta crítico é quanto à diferença entre volume e função muscular. Ricardo Sartorato, educador físico e médico, explica que o ganho de massa serve como limite para a força máxima, mas a qualidade e a coordenação neural determinam a funcionalidade real do músculo. Por essa razão, os médicos ressaltam que as novas substâncias não substituem a atividade física. A geneticista Mayana Zatz e o especialista em fisiologia muscular Tiago Fernandes, ambos do Instituto de Biociências da USP, reforçam que o movimento corporal é indispensável para ativar os mecanismos biológicos do tecido muscular, garantindo que nenhum fármaco é capaz de replicar a complexidade dos estímulos gerados pelo exercício físico.

Fonte O Globo

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