79 anos da conclusão da Ponte Dr. Salo Brand
Veja a história da ponte cardosense

A conclusão das obras da Ponte Dr. Salo Brand “, que liga” os bairros Centro e Cachoeiro, na sede do município de Cardoso Moreira completou 79 anos no dia 24 de agosto de 2026. E para comemorar, registrar essa tão significativa data, a nossa colaborada Ana Lima escreveu sobre sua história.
A história da construção da Ponte Dr. Salo Brand
Eu gosto de conhecer e preservar essas histórias porque elas fazem parte da memória da nossa cidade. São lembranças que atravessam gerações e ajudam a contar quem fomos e como Cardoso Moreira foi se construindo ao longo do tempo.
A construção da ponte foi muito importante para todos os moradores de Cardoso Moreira — mas, para os barqueiros, nem tanto. A partir daquele momento, as pessoas passaram a utilizar a ponte para atravessar o rio, diminuindo consideravelmente o movimento das travessias de barco.
Naquela época, em 1945, aconteceu algo que hoje pode parecer difícil de imaginar. O Dr. Haroldo Joppert, engenheiro da construção civil, tomou para si a iniciativa de construir a ponte. Começou a obra utilizando recursos próprios. Não pediu dinheiro a bancos, não buscou ajuda de políticos nem recebeu recursos de terceiros. Era um projeto em que acreditava e, por isso, investiu parte do patrimônio de sua própria família.
Com o passar do tempo, porém, a situação acabou trazendo muita frustração. O Dr. Haroldo chegou a deixar Cardoso Moreira e foi embora para o Rio de Janeiro.
Mas a necessidade da ponte continuava.
Os fazendeiros da região ainda precisavam transportar suas mercadorias — como milho, arroz e café — e, enquanto a ponte não ficava pronta, esse transporte continuava dependendo dos barqueiros.
Diante dessa necessidade, um grupo de fazendeiros decidiu ir até Campos, durante o governo do Dr. Manuel Ferreira Paz, para pedir que a obra tivesse continuidade.
A construção avançou. O tabuleiro da ponte foi colocado e recebeu o concreto, mas ainda faltavam algumas etapas para que a obra pudesse ser concluída.

Mais tarde, já durante a administração de outro prefeito, o Dr. Salo Brand, os fazendeiros voltaram novamente a Campos em busca de apoio para conseguir finalizar a obra.
Depois de tantos esforços, finalmente a ponte foi concluída em 24 de agosto de 1947.
Mas uma obra daquela importância não poderia simplesmente ser entregue. Era preciso inaugurá-la oficialmente, com a presença das autoridades, do prefeito e dos comerciantes da Vila de Cardoso Moreira. E é justamente aí que começa uma lembrança que meu pai carregou pelo resto da vida.
Na época, meu pai ainda era menino. Ele e seu amigo Zé Medeiros foram assistir à inauguração da ponte. Ficaram do lado de cá, junto com outras pessoas. Havia guardas posicionados nas duas cabeceiras, justamente para impedir que alguém atravessasse antes da cerimônia oficial.
Naquele momento, chegou o maior comerciante de Cardoso Moreira, acompanhado do prefeito de Campos. Meu pai e seu amigo Zé Medeiros, curiosos e querendo acompanhar de perto toda aquela movimentação, tentaram passar.
O guarda imediatamente os impediu:
— Não podem passar! A ponte ainda não foi inaugurada.
Os dois meninos ficaram ali, observando tudo. Até que, como toda criança curiosa e cheia de coragem, resolveram se arriscar.
Quando perceberam uma oportunidade, saíram correndo pela ponte.
Os guardas perceberam a fuga e avisaram os que estavam na outra cabeceira. Do outro lado, os homens ficaram esperando, de braços abertos, preparados para pegar os dois.
E os dois continuaram correndo.
Já estavam no meio da ponte quando meu pai olhou para o amigo e disse:
— Meu amigo, agora a gente tem que correr!
E correram com toda a força que tinham nas pernas.
Quando chegaram quase ao final da ponte, perceberam que não conseguiriam passar pelos guardas.
Então veio a decisão:
— O jeito é correr sem olhar para trás!

E foi assim que os dois meninos, em meio àquela grande inauguração, viveram a sua própria aventura. Conseguiram atravessar a ponte nova, mas, para voltar para casa, escolheram a antiga ponte de ferro. Voltaram felizes.
Afinal, de certa forma, tinham realizado uma verdadeira façanha: foram os primeiros moradores de Cardoso Moreira a atravessar a nova ponte, ainda antes da inauguração oficial.
Do jeito deles, aqueles dois meninos acabaram inaugurando a Ponte Dr Salo Brand antes mesmo das autoridades!
Essa história meu pai contava sempre que a família se reunia na varanda. Ele relembrava aquele dia, e nós ficávamos imaginando aqueles dois meninos correndo pela ponte, enquanto as autoridades estavam ali, prontas para a cerimônia.
Era uma lembrança simples, mas, com o passar dos anos, tornou-se uma das histórias mais queridas da nossa família. Por isso, hoje, quero prestar uma homenagem à Ponte Dr Salo Brand, que completou 79 anos de existência e resistência no dia 24 de agosto.
É claro que, ao longo de todo esse tempo, a ponte passou por alterações e adaptações necessárias, principalmente para oferecer mais segurança aos pedestres e acompanhar as necessidades de cada época. Mas sua importância permanece.
Eu sempre gostei de falar sobre a Ponte Dr Salo Brand e, principalmente, de lembrar o papel do Dr. Haroldo Joppert, uma pessoa tão importante nesse capítulo da história de Cardoso Moreira. Sua iniciativa, seu investimento e sua determinação fizeram parte da construção não apenas de uma ponte, mas de um pedaço da própria história da nossa cidade.
Setenta e nove anos depois, a ponte continua ali, testemunhando o tempo, as mudanças e as histórias de tantas gerações. E, entre tantas histórias que ela guarda, está a de dois meninos que, correndo, cheios de coragem e sem olhar para trás, encontraram seu próprio jeito de fazer parte daquele momento histórico.
A ponte foi construída para ligar duas margens. Mas, com o passar dos anos, ela acabou ligando também gerações, memórias e histórias que jamais deveriam ser esquecidas.
Por
Ana Lima


