Virgínia Fonseca está sendo investigada pela PF
Investigação traz questões sobre os negócios da influenciadora

omo se estivesse indo para um passeio no parque, a influenciadora Virginia Fonseca chegou ao Congresso, em maio do ano passado, de cabelos soltos e óculos, sem maquiagem, vestindo um moletom preto com a foto da filha Maria Flor estampada na blusa. Estava acompanhada do então marido Zé Felipe, filho do cantor Leonardo, e do advogado criminalista Michel Saliba. Convocada pela CPI das Bets, Virginia havia ido ao Congresso para explicar o seu papel na divulgação de apostas online.
Alguns meses antes, a piauí revelara que o contrato da influenciadora com a Esportes da Sorte, uma casa de apostas, previa o chamado “cachê da desgraça alheia” – ela recebia 30% do montante que os apostadores perdiam no jogo. Em razão disso, o “cachê da desgraça alheia” tornou-se um dos assuntos da CPI.
Ao depor, Virginia disse não saber da epidemia de dependência e endividamento provocada pelas bets no Brasil e negou lucrar com a má sorte dos seguidores-apostadores. “Nunca recebi 1 real a mais do que o contrato de publicidade que fiz por dezoito meses”, declarou. “Era um valor fixo. Se eu dobrasse o lucro, eu receberia 30% a mais da empresa, mas isso não chegou a acontecer.”
Como as casas de apostas sempre lucram com a perda dos apostadores, a explicação de Virginia parecia apenas um jogo de palavras.
Envolvida em grande expectativa quando foi criada em novembro de 2024, a CPI das Bets terminou em 12 de junho de 2025 com um resultado frustrante. Pela primeira vez na última década, o relatório final de uma CPI foi rejeitado no Senado, depois da ofensiva do lobby das bets. Com 541 páginas, o parecer da relatora, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) pedia o indiciamento de dezesseis pessoas, entre elas, Virginia Fonseca.
Durante os sete meses de duração da CPI, os parlamentares examinaram informações sensíveis e esclarecedoras, como os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A piauí também examinou os RIFs, que vinham sendo mantidos em sigilo, e constatou que as movimentações bancárias da influenciadora levantam uma série de questionamentos.
Em razão do conteúdo dos RIFs, Virginia, embora tenha se livrado da CPI, passou a ser investigada pela Polícia Federal. A investigação se destina a apurar a legalidade das operações financeiras da influenciadora e suas empresas, bem como a origem dos recursos movimentados, a eventual prática de crimes financeiros, fiscais e de lavagem de dinheiro.
Uma das suspeitas está na conta da Talismã Digital, a empresa de Virginia e do ex-marido Zé Felipe que atuava com mídias digitais. Entre março e setembro de 2024, a Talismã Digital recebeu 22,4 milhões de reais. O principal depositante do dinheiro, a AMP Pay Marketing e Negócios, transferiu 17,7 milhões de reais por meio de cinco remessas via Pix. O Santander preocupou-se porque, mesmo com essa transferência fenomenal, a AMP Pay está registrada na categoria Simples Nacional, o regime tributário ao qual têm direito apenas os negócios que faturam até 4,8 milhões de reais por ano, ou 400 mil reais por mês, em média. Outro detalhe: além de aparentar não ter “capacidade financeira” para movimentar tal volume, a AMP Pay está localizada em um box comercial no Centro de Itajaí, no interior de Santa Catarina.

Durante os sete meses de duração da CPI, os parlamentares examinaram informações sensíveis e esclarecedoras, como os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A piauí também examinou os RIFs, que vinham sendo mantidos em sigilo, e constatou que as movimentações bancárias da influenciadora levantam uma série de questionamentos, informam João Batista Jr. e Alessandra Medina, na edição deste mês da revista.
A Wepink é o principal negócio de Virginia Fonseca. Mas a história da empresa de cosméticos não se inicia com ela – e sua origem é carregada de suspeitas. Começa com o casal paulista Samara Cahanovich Martins e Thiago Stabile, donos de uma empresa especializada em design de sobrancelhas e cílios, a Pink Lash, que teve como sócia a enfermeira Karen de Moura Tanaka Mori, conhecida como Japa do PCC, porque era mulher de um membro da organização criminosa. Posteriormente, Martins e Stabile romperam a sociedade com Mori e fundaram a Wepink em sociedade com Virginia e o empresário chinês Chaopeng Tan. Em 2025, o faturamento da Wepink foi de 1,3 bilhão de reais.
Virginia tem cerca de 56,6 milhões de seguidores no Instagram. É a segunda mulher no Brasil com maior número de seguidores, atrás apenas da cantora Anitta. Ela consegue tornar sua vida pessoal atrativa para milhares de pessoas e os canais de fofoca, sempre chamando a atenção para si mesma. Um estudo feito a pedido da piauí pela Palver – empresa especializada em monitoramento e análise de redes sociais – examinou 100 mil grupos públicos de WhatsApp e constatou que Virginia ultrapassa alguns líderes da extrema direita que dominam as conversas no mundo digital. Em maio passado, quando ela terminou seu namoro com o jogador Vini Jr., seu nome foi buscado 170% de vezes a mais no Google no Brasil do que o de Flavio Bolsonaro.
O post no Instagram em que ela contou sobre o namoro com o jogador, em 28 de novembro passado, teve 11 milhões de likes e um total de 44 mil menções nas redes sociais. No mesmo dia, a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, quando morreram 122 pessoas, teve 43 mil menções, segundo um levantamento realizado por Lilian Carvalho, doutora em marketing e coordenadora do Centro de Estudos em Marketing Digital da Fundação Getulio Vargas.
Depois que terminou com Vini Jr. – e ganhou 323 mil seguidores em 24 horas –, Virginia pegou o seu jatinho e, junto com os sócios Samara Martins e Thiago Stabile, viajou para Dubai. Um dos passeios da influenciadora foi em um zoológico, onde ela fez um vídeo beijando um macaco. Na legenda, escreveu: “Que pegada foi essa? (risos).” A imagem chocou muita gente, que a associou a um ato de racismo recreacional.
Fonte Revista Piauí



