Ana Lima escreve sobre Gastão “três pulinhos”, lembra dele?

Uma linda e merecida homenagem

Arquivo Pessoal

Em fevereiro deste ano, 2026, publicamos aqui no site conexaoregional.com uma Prosa Poética / Crônica Poética escrita pela funcionária pública municipal há 32 anos, Ana Lima. E hoje, 13 de março, publicamos um texto/crônica em homenagem a um dos cardosenses que foi uma figura pública para gerações em Cardoso Moreira. Tenho certeza, como nosso editor, ao ler o texto abaixo, você leitor vai lembrar de algum momento vivido com o saudoso “Gastão, dá três pulinhos”. Te convidamos agora a embarcar nessa homenagem tão especial.

Arquivo Pessoal

Homenagem a Gastão por Ana Lima

Gastão não foi apenas um homem que viveu entre nós. Foi uma presença, uma memória viva caminhando pelas ruas de Cardoso Moreira, deixando marcas silenciosas no coração de cada pessoa que o conheceu.
Primo legítimo de meu pai Luiz Gastão, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim/ES e, lá fez a Primeira Comunhão, cursou o Científico mas nunca encontrou ali o lugar onde sua alma queria permanecer. Seu verdadeiro lar sempre foi onde havia gente, afeto e portas abertas.
Ainda jovem, a meningite — numa época em que a medicina não tinha os recursos de hoje — mudou o rumo da sua vida. Muitos sucumbiam à doença, outros carregavam suas consequências para sempre. Gastão seguiu vivendo à sua maneira: sem maldade, sem rancor, sem ferir ninguém. Pelo contrário, era amado por todos.
Tinha uma caligrafia linda, quase artística, e vestia-se sempre de terno completo, como os homens elegantes de antigamente. Os ternos eram quase sua armadura contra o mundo. Ganhava novos com carinho das pessoas e os vestia sobre os antigos, camada sobre camada — talvez por isso nunca sentisse frio, ou talvez porque fosse aquecido pelo afeto da cidade inteira.
Trilíngue, falava três idiomas. Um homem de inteligência rara, guardando dentro de si conhecimentos que encantavam quem se aproximava. As crianças o adoravam. Pediam: “Gastão, dá três pulinhos!” “Faz um quatro!” “Fala ‘eu te amo’ em francês!” E ele fazia, com equilíbrio perfeito, como quem participava de um ritual secreto de alegria. Ninguém entendia completamente o significado dos três pulinhos, mas todos entendiam o que realmente importava: ele trazia sorriso.
Todas as manhãs, descia pelas ruas conhecidas. Parava diante das casas amigas, onde sempre havia um café esperando — a primeira refeição do dia oferecida com respeito e carinho. Perto do meio-dia, voltava pelo mesmo caminho, e o almoço também estava garantido. Não era caridade; era amor coletivo. Cardoso Moreira cuidava de Gastão, e Gastão cuidava da memória afetiva da cidade.
Morou na casa do vô Gastão, vivendo de forma simples, sem fazer mal a ninguém. Sua existência era mansa, quase poética.
Mais tarde, foi internado numa casa de repouso. Tentou fugir — talvez porque a liberdade sempre tivesse sido sua verdadeira casa. Depois disso, colocaram-no num andar difícil, um verdadeiro labirinto. Mas nem paredes nem corredores conseguiram apagar quem ele era.
As visitas chegavam com pijamas, frutas, biscoitos e produtos de higiene. E ele recebia tudo com aquele jeito silencioso de quem reconhece o carinho. Tinha um amor especial pela minha mãe, que sempre lhe entregava uma marmita farta, cheia de comida gostosa, garantindo que ele nunca voltasse para casa sem sentir o cuidado de uma família.
Há cerca de quase 11 anos, Gastão partiu. Mas algumas pessoas não vão embora de verdade. Na memória dos cardosenses, ele continuará caminhando pelas ruas, bem vestido, gentil, cercado por crianças e vozes que ecoam até hoje:
“Gastão, dá três pulinhos!”
“Faz um quatro!”
“Fala ‘eu te amo’ em francês!”
E talvez essa seja a maior homenagem que alguém pode receber: não ser lembrado pela doença, nem pelas dificuldades, mas pelo carinho que deixou espalhado em cada esquina.
Gastão permanece vivo — na saudade, nas histórias contadas,
e no amor simples que só as almas boas sabem plantar.

2 thoughts on “Ana Lima escreve sobre Gastão “três pulinhos”, lembra dele?

  • março 13, 2026 em 4:34 pm
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    Gastão, uma lenda!
    Lindo texto. Ana Paula conseguiu fazer uma ótima síntese de uma vida de mais de 80 anos…mas se perguntasse a ele quantos anos ele estava, resposta era sempre a mesma …30 anos.

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  • março 15, 2026 em 1:07 am
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    Escrever com sentimento é um dom raro. Não é apenas juntar letras no papel — é colocar pedaços da alma em cada frase, é transformar silêncio em voz e emoção em poesia. A crônica de Ana Paula toca o coração de quem lê, porque ali não há apenas tinta ou tela… há verdade. E quando a verdade encontra as palavras certas, acontece algo bonito: alguém, em algum lugar, se sente compreendido, quem lê fecha os olhos e se sente dentro do texto, vivendo uma realidade que não é sua ou deixou de ser. Parabéns Ana Paula por nos lembrar de Gastão, um personagem querido de toda população cardosense. Parabéns Dirceu Tito, por abrir espaço para palavras tão bonitas que tocam fundo em nossos corações. Em um mundo tão imediatista e superficial é importante dar espaço às memórias do passado para que as novas gerações conheçam nossas histórias. Esse texto foi uma viagem a nossa infância e adolescência. ✍️

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